Coreia do Norte x EUA à luz da Teoria dos Jogos

Escrito por:

Raphael Palone, CFP, CGA e MSc

Sócio e professor FK

Mestre em economia pela The London School of Economics and Political Science (LSE).

O mundo inteiro está de respiração presa pensando o que vai acontecer se, de fato, a Coreia do Norte bombardear a ilha de Guam, conforme seu líder Kim Jong-um tem prometido, e se isso levaria a uma Guerra Nuclear que pode, no limite, envolver Rússia, China e outras potencias e reacender a Guerra Fria.

Em Teoria dos Jogos, existem dois tipos de jogos: os finitos e os infinitos. Jogos finitos são definidos por players conhecidos, regras fixas e um objetivo a ser disputado. Um jogo de futebol é um jogo finito. Já um jogo infinito tem players conhecidos ou desconhecidos, as regras podem ser alteradas e a única regra é perpetuar o próprio jogo.

Quando temos um jogo de players finitos contra players finitos, o sistema é estável (como um jogo de futebol, exceto se o jogo ocorrer em São Januário, kkk). Colocar um player infinito contra outro player infinito também resulta em um sistema estável, porque não existe um ganhador e um perdedor, o que se deseja não é a vitória, é a perpetuação do jogo. Se não existe derrota, o que pode existir é um player sair do jogo, seja por falta de recursos, seja por não querer mais jogar.

Os problemas ocorrem quando colocamos um player finito contra um player infinito. Um quer ganhar, outro quer se perpetuar. Esse erro acontece nos negócios o tempo todo, quando uma empresa tenta ser a melhor e bater o mercado, e não se dão conta que o mercado é um jogo infinito, de perpetuação, de visão de longo prazo. Não raro esse tipo de empresa é comprada, ou fundida ou sai do mercado por falta de recursos. Esse erro também é muito comum acontecer em guerras em que uma parte quer vencer (EUA/Rússia) e outra quer sobreviver (Iraque/Afeganistão).

O problema da Coreia do Norte não começou hoje. Começou em 1991 quando acabou a URSS e os EUA declararam que a Guerra Fria tinha acabado e que eles tinham vencido. Não venceram!! Simplesmente um dos jogadores saiu por falta de recursos. E como em todos os jogos infinitos, novos jogadores vão surgir. Os três vetores que fundaram a Guerra Fria (tensão nuclear, tensão ideológica entre capitalismo e comunismo e tensão econômica) continuam existindo e bastante inflamados, apenas trocamos URSS por Coreia do Norte na frente nuclear, trocamos comunismo por extremismo islâmico na frente ideológica e trocamos URSS por China na frente econômica. Se você conhece Teoria dos Jogos, sabe que o que está acontecendo agora está muito mais pra uma Guerra Fria versão 2.0 do que uma tensão diplomática isolada.

Enquanto os EUA ou qualquer de seus aliados tentarem vencer, estarão sempre correndo atrás de novos problemas e com metas mais curtas e mais urgentes. Este não é um jogo finito. Enquanto tentar vencer, nunca vão saber “contra quem estamos lutando”, afinal o sistema se torna complexo e cada vez mais forças e mais variáveis surgem. Seus aliados se confundem, e a determinado ponto mesmo eles começarão a lutar entre si, afinal não sabem contra quem estão lidando.

A melhor estratégia a se adotar em um jogo infinito é ter valores imutáveis e traduzi-los em interesses, mutáveis e temporários. Líderes erram ao se focar e negociar baseados em interesses, que muitas vezes vão contra seus valores. Isso os leva a roubar, matar, torturar sem que isso os leve à resposta “pelo que lutamos?” Agir com valores constantes, ainda que contra nossos interesses, nos torna previsíveis, traz a confiança dos aliados e nos faz perceber facilmente se está conosco ou contra nós.

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Publicado em 14/08/2017

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